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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Similar à Uma Vida

Esse texto foi escrito no dia 19 de janeiro.

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Ontem aconteceram três coisas bem engraçadas Engraçadas, não. Intrigantes. Não ha graça, seja qual o sentido de graça empregado; nenhuma graça nisso.
Parece sina deste tempo infeliz da minha vida: tudo que eu escrevo é mal interpretado. Se eu desabafo sobre a hipocrisia do mundo, tem gente que diz que foi uma tentativa de humilhar e de expor outrem. Se eu escrevo de forma puramente ficcional, tem gente que insiste que tou falando de mim. Se eu escrevo sobre mim, tem gente que acha que tou dando lição de moral... ou que tou me fazendo de coitado.
As pessoas são livres para pensar o que quiserem sobre o que leem. Mas isso já ta virando perseguição. Sério.
De qualquer forma, nunca prometi ser uma pessoa boa. Não sou, não aprendi a ser, e nem sei se quero.
As pessoas boas são hipócritas, e eu não quero isso pra mim. As pessoas boas assediam moralmente seus semelhantes, humilham e insistem em continuar humilhando. E olha que eu não sou uma pessoa de me ofender fácil quando eu sou o tema. Dói mais quando o afetado é uma pessoa de quem eu gosto, seja amigo, conhecido ou o que for; principalmente quando a pessoa não merece.
Mas eu não sou uma pessoa boa. Não sou mesmo. Eu falo o que eu penso e que se exploda. Ninguém nunca se importou se eu estou confortável ou não com o que tem para falar de mim. Sempre fui motivo de chacota, e por mais que me esforce continuo sendo. Porque deveria me importar com sentimentos de quem não se importa com os meus?
Eu não preciso de muitos amigos. Não preciso de hipocrisia, de politica de boa vizinhança. Preciso de sinceridade. Cansei de dar a outra face, isso não serve pra nada.
Sabe, li esses tempos um texto da Tati Bernardi onde ela falava que sua personagem (não tenho certeza se aquilo era "autobiográfico" ou não), quando pequena, sentia uma imensa angustia e ansiava por quando começasse a sentir dor. É mais ou menos assim que eu me sinto. O mundo me angustia, me machuca, me fere... mas não me dói. Abre feridas, aperta o peito, comprime a vontade, pressiona a mente, enfraquece o corpo. Mas não dói.
É sempre essa eterna angústia. A eterna angústia de ser olhado, mas não visto. Ou de nunca ser transvisto, se for melhor.
Eu fui uma criança sozinha, eu fui um adolescente sozinho e eu sou um jovem adulto sozinho. Não importa como eu seja, o mundo me repele, me rechaça, me afasta de seu convívio corrompido, asqueroso. E é terrivelmente angustiante isso. Não importa o quanto se critique, se recrimine, todo mundo quer se banhar nestas águas fétidas, nadar por este rio purulento de doenças epidêmicas, crônicas e psicossomáticas que insistimos em chamar de sociedade. Engraçado, agora, pensar que insistentemente se fala em câncer social, quando na verdade a nossa sociedade integralmente é um grande tumor maligno.
De qualquer forma, eu sempre estive a parte disso tudo. Não por escolha minha, mas dos outros. Eu fui uma criança feliz, um adolescente feliz e sou um adulto feliz. Aprendi a ver a felicidade no menor dos atos humanos, na mais tenra beleza natural... aprendi a encontrar a felicidade no menor dos detalhes.
Mas nunca fui ninguém. Desde pequeno, eu vivi em uma redoma de vidro, o que me condenou a levar de choque toda a maldade do mundo em cada instante em que preciso dar a cara a tapa. Essa redoma que a minha família me pôs para me proteger, me defender do mundo, também os deixou do lado de fora. Fui criado pelo molde da submissão, da omissão, do carinho momentâneo, do afeto como moeda de troca onde toda a barganha ficava aos encargos de outrem. Eu era ali, uma criança que recebia migalhas de tudo, do mundo, numa família desestruturada, corrompida, marcada pela indiferença pela minha mãe, já que todo amor da minha avó e todo desafeto do meu avô eram focados ao filho mais velho. Era ele, a quilômetros de distancia, um fantasma que ainda agride a instituição primeira onde meu irmão cresce e para onde, de volta, destino carrega minha mãe e eu. Sim, porque, afinal, ele, meu dindo, é uma pessoa boa. O bom cristão católico, o bom filho que fez aquilo que a mãe esperava (inclusive rejeitar o próprio pai), o bom marido que é indiferente à casa sob alegação de deixa a administração do lar para a esposa, o bom profissional que começou como um gauchito estudante de Administração, viajou o mundo custeado pelo banco em que trabalhara e hoje é um paulistano bem sucedido ministrando aulas em uma universidade. É o molde perfeito de boa pessoa, que liga periodicamente para demonstrar interesse e preocupação para conosco, mas, mesmo ganhando sozinho a renda de nossa casa inteira atualmente, não é capaz nem de posar conosco quando vem à Sapucaia. Dorme todas as noites na sogra, passa praticamente todos os dias visitando os parentes da esposa, enquanto a mãe recebe migalhas de sua presença, os sobrinhos e a irmã apenas lição de moral, e os tios e primos nem sombra. Mas não se influencie por mim: meu dindo é uma pessoa boa, e eu, como minha avó faz questão de lembrar, uma pessoa ruim. É que expor falhas de caráter sempre transforma o mais santo dos homens em monstros sem coração... não é?!
Bom, eu fui criado assim, à sombra do tio perfeito, sem pai, e com meu avô sendo recriminado como monstro. Certo, ele tem defeitos - todos os defeitos, segundo alguns -, mas foi o pai que eu tive, o homem que tentou me ensinar o que sabia, que sempre me deu carinho, atenção e amor. O problema é que a imagem dele foi por tanto tempo recriminada pela minha avó, que hoje eu simplesmente não consigo me aproximar mais. Cresceu uma barreira impenetrável entre nós – construída inclusive pela boa pessoa do meu tio –, que hoje, simplesmente, eu e meu avô somos como estranhos um ao outro. Sobram-me carinho e respeito pelo velho, mas essa maldita redoma em que me colocaram já não comporta mais a passagem do meu avô para dentro dela.
Toda minha família, talvez a exceção do meu avô, sempre esperou de mim aquilo que eles querem, não o que eu quero. O que eu quero não serve pra mim. Eu estou errado, eu sou muito imaturo ainda pra entender, tudo que eu faço é errado e/ou mal feito.
Me deram um curso de teclado, uma vez, mas eu era obrigado a treinar em casa com um instrumento duas oitavas menor do que os teclados profissional. O som saía horrível, prejudicava meu desenvolvimento; meu professor insistia na compra de um teclado do tamanho certo – chegando a oferecer um dos dele a um preço muito menor que o de mercado, mesmo para um instrumento usado como aquele. Quando eu parei de tentar ensaiar com aquilo, e fiquei restrito às aulas, minha família me tirou do curso. Até hoje elas dizem que fui eu que desisti, que eu que não quis mais, que elas não sabem porque.
Na escola, eu era aquela criança que não era aceita por nenhum grupo. Ou porque eu era quieto demais, ou porque preferia a casa do que a rua, porque eu tinha as melhores roupas da turma na escola publica, ou as piores na particular, porque eu tirava as melhores notas, ou porque eu era vaidoso, porque eu era gordinho, ou porque eu não ficava sozinho em casa a tarde toda, porque minha mãe era professora na escola, ou porque ela comparecia em todas as reuniões, porque eu
escrevia, porque eu cantava no coral, porque eu fazia teatro, porque eu desenhava, ou porque eu era gago. As crianças sabem ser as criaturas mais cruéis da face da Terra... mas, no fim, elas crescem,
amadurecem, e viram pessoas boas. Minha classe era sempre a escolhida para ser esbarrada e os meus materiais eram sempre os que se espalhavam pelo chão. Eu cheguei a apanhar na escola. Por mais que eu gostasse de estudar, por vezes eu tive medo de voltar pra lá; mas os professores nunca entendiam, afinal, a turma era sempre boa e tranquila, o Erik é que destoava por se autoexcluir do grupo.
Eu poderia mentir, agora, dizendo que eu era o único que sofria bullying, ou que eu sempre apanhei, ou que roubavam meu lanche ou meu dinheiro para. Ou fazer drama, elencando que minha sugestão de nome nunca foi escolhida para a equipe da gincana; que os colegas me proibiam de assumir uma prova na gincana, mas me cobravam e me xingavam porque ninguém mais tinha feito, então eu deveria ter feito mesmo eles mandando eu não me meter; ou que minhas ideias, mesmo sendo as melhores, nunca foram acatadas dentro de um trabalho em grupo. Mas não é esse o meu intuito. Não quero provocar pena: somente pessoas boas são dignas de pena. Também não vou dizer que não minto. Mentir é a maneira mais fácil de se obter a atenção das pessoas. Principalmente quando se mente muito e mal: as pessoas vão sempre prestar atenção em cada vírgula sua para descobrir se tu estas mentindo ou não, e se podem confiar ou usar aquilo contra ti.
Quem não tem cão, caça com gato... ou quem não tem atenção pelas qualidades, consegue-a pelos defeitos. Eu desenho perversões mentais, escrevo coisas feias, meu cabelo é horrível e eu não sei me vestir.
Sempre quiseram que eu amadurecesse, mas nunca pelo que e para o que eu queria. Aos doze anos, eu era errado por não ter ficado ainda; aos treze, por estar ficando; aos quatorze por estar namorando; aos quinze por ter brigado; aos dezesseis por ter perdido a virgindade; aos dezessete por começar a trabalhar; aos dezoito por ter casado. Eu era o pior filho do mundo por querer viver a minha vida, por querer trabalhar, por querer cursar filosofia ou teologia, por sair de casa para ir a escola de manhã e a tarde à um parque ao lado da escola onde minha mãe trabalha, por passar grande parte do meu tempo dentro do quarto, lendo, escrevendo, desenhando ou no computador, por jogar bola na frente de casa, por querer fazer magistério, por querer ajudar quando meus amigos ou a minha mãe se viam subjugados pelo mundo.
Um exemplo? Eu tinha quinze anos quando uma amiga minha engravidou. Ela era madura o suficiente para arcar com as consequências; a gravidez foi acidental de um namoro firme, único e de conhecimento geral. Ainda assim eu fiquei preocupado. Quanto a isso, minha avó olhou pra mim e disse: “é teu o filho?! Então deixa que ela se estrepe. Quis dar, agora que aguente.” Minha amiga era uma pessoa ruim, e eu, como pessoa boa que esperavam que eu fosse, deveria ser indiferente a peça que a vida lhe pregara e as dificuldades pelas quais minha amiga passaria. Ela era uma pessoa ruim, e foi vítima de ciúmes infundado, sofrendo julgamento e preconceito, sendo intitulada "tiatina"; Afinal, como pessoa boa que esperavam que eu fosse, por estar namorando/casado, eu não deveria ter amigas, muito menos uma que tinha engravidado na adolescência...
Minha ideia de mundo foi sendo dizimada ao longo do tempo em que a minha visão de mundo se construiu: Não temos amigos. Amigos são pessoas com quem conversamos, mas para quem não expomos nossas vidas. Primos não são família. Primos dos pais não são nada. Tios são os irmãos dos pais, e merecem respeito, mas não são família. Tios não são os irmãos dos avós, nem outros adultos que fizeram parte ativa da tua criação. Família não é uma organização, um núcleo só, uma só finança e decisões coletivas. Eu tenho um carinho imenso pela minha família de Charqueadas... o
problema é que eles não são minha família de sangue, então não são nada meus.
Não sou de esquerda, nem de direita, então eu sou alienado. Eu não trabalho em chão de firma, não fiz nenhum técnico, não me importo com a carteira assinada se estiver trabalhando/estagiando no que gosto, então eu sou imaturo, irresponsável, fracassado. Eu tenho imenso respeito e gratidão pelas pessoas que querem meu crescimento, meu futuro promissor. Mas eu sou uma pessoa ruim, e essa angústia não me abandona. Eu sou tão ruim, que quanto mais eu grito por socorro, mais eu imploro por ajuda, mais eu corro e me esforço... ninguém vê. Eu queria ser desenhista... Queria ser musico... Queria ser ator... Queria ser escritor... Queria minha vida dedicada às artes, dar vazão à minha mente incontrolável e ao peso da minha alma. Mas pessoas boas, verdadeiramente boas como meu dindo, trabalham em coisas que realmente dão dinheiro, falam três linguás no minimo, leem apenas literatura técnica, e dão vazão as suas angustias orando, comprando, viajando...
Pessoas ruins se preocupam em ser, e não em parecer ser: ser quem são, e não o que os outros querem que elas sejam. Ou, talvez, eu seja tão ruim que, sendo assim, eu sou pior que as pessoas ruins.
Eu sou uma pessoa sincera e verdadeira, mas aprendi a ser desonesto. Teve um tempo que a minha vida era um livro aberto. Saber de mim era fácil, porque eu contava tudo. Não haviam segredos, e isso deu liberdade a que cada suspiro meu fosse usado contra mim. Eu era o viadinho, o vagabundo, o retardado. Era motivo de chacota! Aprendi a mentir, esconder, dissimular. A ver a maldade em tudo, a desconfiar de todos. Nunca usei ninguém, nunca fingi. Mas saber disso foi bom, aumenta minha angústia e minha decepção para com as pessoas.
No fim, eu cresci imerso em uma depressão sem fim. Tenho consciência de que não presto, de que sou uma pessoa ruim. Logo, mereço e busco as devidas punições, sendo meu maior crime essa existência errônea, errante. Magoar as pessoas me provoca uma horrível angústia que parece consumir meu coração – se é que pessoas ruins tem um coração –, mas sou obrigado a magoá-las: eu sofro mais que elas, sendo a única forma de punição que posso atingir, já que não tenho a coragem de um suicida.
Ver alguém que gosto sofrendo por qualquer coisa me angustia por minha impotência em melhorar tudo. Mas quando ela sofre por mim, a angústia me dilacera, me rasga, me impele a mudar...
Só que eu não consigo. Por mais que eu procure, não consigo emprego de verdade. Por mais que me esforce, não consigo desistir da licenciatura e trocar a Historia pelo Direito, pela Administração ou por uma engenharia. Por mais que eu sofra, não consigo deixar de querer escrever, desenhar, pintar, atuar, fotografar. Por mais que me fira ser uma pessoa ruim, eu não consigo mudar, não consigo ser uma pessoa boa, um homem respeitável de cabelos curtos e barba feita todo o dia, assistindo futebol, me interessando por carros, politica e economia... e não por desenhos de jiboias com elefantes dentro. Então, o mundo me agride, por minha incapacidade de ser alguém, de ser uma pessoa boa.
O problema da agressão é que, assim como o agressor pode ter muitas faces, ela pode ter muitas formas. Talvez a única semelhança nesta pluralidade seja que, independente do que mais provoque, sempre causa humilhação. Em mim, cada humilhação dessas alimenta esta angústia interminável. Assim, ao contrario do ditado que diz que o que não mata, fortalece, eu fico cada vez mais vulnerável. Hoje, vivo com a certeza do não-reconhecimento, o medo da solidão, e a ferida aberta da humilhação que ninguém deixa cicatrizar. Eu lembro de que não pude me defender quando apanhei na escola, que não fiz nada quando fui assaltado... que hesitei quando, na frente da minha então esposa, minha avó gritou na cozinha, o dedo apontado pro meu rosto: "tu tem o dedo podre". Mas ainda assim não doí. Faz-me o estômago em raivosa gastrite, me deprime, me faz desacreditar em mim... mas não dói.
Eu sei bem aquele outro ditado sobre dar a outra face. Jesus fez isso. Dalai Lama também. Ambos foram mortos por seus inimigos. Jesus nunca conseguiu unificar os judeus, ao contrario, separou-os ainda mais; Dalai Lama, com os indianos, sim. Ambos líderes religiosos, Jesus se negou a combater os romanos; Dalai Lama entrou em combate pacifista. Mas eu não sou religioso, não sei revidar de maneira nenhuma. Se dou total a outra face, excrucio. Se combato pacificamente, não há qualquer apoio de ninguém. Se revido, não agrido, ofendo. E por mais que eu queira agredir, que tente, que me esforce, no fim, só ofendo.
A diferença crucial é que ofensa magoa, machuca, choca, mas não humilha. Toda a vez que eu sou humilhado, que me abrem uma ferida nova, que aumenta minha angústia, tudo que consigo fazer é causar uma marca efêmera, e eles nunca sentem, não sabem, o que sinto. Neles, lágrimas passageiras dos olhos pra fora. Em mim, uma tormenta interminável pela mente e pela alma. Eles logo voltam às suas vidas de pessoas boas. Eu, como ruim, existo com os pés na lama das minhas fraquezas, encharcado pelas gotas dos meus erros, imerso na escuridão da minha angústia.
Eu vivo nesta angústia inacabável, sabendo que sou uma pessoa ruim, mas me esforçando para ser boa. Afinal, não sou uma pessoa boa de fato, mas posso parecer ser. Por tentar me tornar uma pessoa boa, comumente sou confundido com uma, mas sou uma pessoa ruim. E como pessoa ruim, machuco as pessoas que acham que eu sou uma pessoa boa. Eu adoro limpar a casa, mas sempre sai mal feito, sempre alguém acha um defeito. Eu adoro cozinhar, mas nunca consigo fazer o processo como as pessoas querem/esperam que se desenrole. Eu queria ser um bom marido, mas não tenho emprego fixo, então minha esposa precisava trabalhar para ajudar na casa, assim como tinha meu total apoio para estudar, o que a impedia de lutar por seus direitos. A minha angústia me fez ofendê-la, mas ela permaneceu ao meu lado; isso me destruía dia após dia, aumentava a minha angústia vê-la esperar e se esforçar para que eu me tornasse uma pessoa boa. Eu queria ser pai, mas não consigo cuidar nem de um cachorro ou gato... Eu queria ser adulto, e largar os animes e mangás, os quadrinhos e animações, os filmes de ficção e fantasia, os games e o RPG. Mas eu sou um lixo. Não me encaixo em lugar nenhum, não tenho nada em comum com ninguém, não tenho amigos, não tenho família.
As pessoas me rodeiam, esperando que eu finalmente deixe de ser tão ruim, para só então integrarem minha vida. Atualmente, tudo que eu quero é afastá-las Nada de bom vem de mim, sou autodestrutivo e incoerente. Fui criado para ser uma pessoa boa, mas não consigo ser. Não quero meu irmão seguindo meus passos. O pai dele sempre me avisou quanto a isso: que eu seria um péssimo exemplo para meu irmão, que eu não seria ninguém na vida. A exceção da vez que um colega de serviço que enfiou o dedo na minha cara e disse que eu era um merda, o pai do meu irmão foi a única pessoa sincera comigo: eu não sou alguém que preste. O problema é que me angustia - quase, mas ainda assim não dói – ver meu irmão rindo quando a minha avó se coloca dominadora e humilhadora em cima de alguém Eu sei que essa é a criação certa, que assim meu irmão vai ser uma pessoa boa, de caráter, de futuro; mas eu não consigo. E eu sempre acabo fazendo alguma coisa, as vezes drástica Mas eu estou errado, eu sei. A minha avó sabe o que faz, e não vai errar com meu irmão como errou comigo. Afinal, ela é uma pessoa boa; as ex-cunhadas que não a visitam é que são invejosas, por que minha avó está reformando a casa constantemente, mesmo que dessa forma não tenha condições financeiras para operar os olhos. Ela é uma pessoa boa, afinal: em seu aniversário, logo depois que todo mundo havia se servido pela primeira vez, ela disse que sobraria tudo que tinha na mesa para o almoço do dia seguinte. Só as pessoas ruins, como eu, entenderam aquilo como um "tem que sobrar para amanhã".
Eu é que sou uma pessoa ruim, por pensar sozinho, por querer arriscar mesmo podendo quebrar a cara. Eu sou uma pessoa ruim por não querer ver meu irmão crescendo como a pessoa boa: meu irmão que é sarcástico o tempo todo com todo mundo, que conhece o mundo pela televisão e pelos seriados norte-americanos, que desde os sete anos de idade prefere filmes de ação a animações, que ignora quando alguém chato – geralmente mais velho – vem conversar com ele.
Eu fui criado pra ser uma pessoa boa: dentro de uma redoma de vidro onde nada penetra, onde eu viveria egoisticamente em beneficio meu e realizando os sonhos e desejos da minha avó, longe do exemplo da minha mãe que cometeu o erro de tentar viver pela própria cabeça e só conseguiu quebrar a cara e destruir a própria vida. Mas eu nasci com uma índole ruim, propenso a chafurdar na lama da nossa sociedade em busca de comida limpa e não lavagem. Eu fui mimado demais, e acabei achando que o mundo é dos mais justos e não dos mais espertos. Ledo engano.
Agora eu sou uma pessoa angustiada, que se odeia e tenta se punir a todo o custo por seu erro de não ser quem se espera. Não é sarcasmo, não é ironia: eu sou realmente um merda, um mau exemplo, um infeliz solitário, um depressivo ridículo que fica quase seis horas escrevendo um texto que só servirá para que ele se odeie mais por ser quem é. Não e uma lição de moral, é um desabafo a espera da benção da dor.

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