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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Esquizofrenia - Capítulo 2 - Parte 4


Rômulo correu pelos corredores. Fazia uma vaga ideia do que deveria fazer. Em sua mente, o pedido de Freeman ecoava: tirar Jonathan Blake do hospital, fazê-lo lembrar-se do livro, e levar ambos para longe de Valence.
O quarto de Jonathan ficava no quarto andar. Mesmo por elevador, seria impossível chegar ao quarto dele antes da medicação. O que o homem não conseguia entender é como não fora acompanhando os enfermeiros até o quarto. Era uma de suas obrigações, e fora por ela que o velho o chamara para aquele pedido; assim como Nia, a enfermeira principal daquele corredor.
Eles haviam combinado que Rômulo distrairia, de uma forma ou de outra, o grupo, para que Jonathan fugisse. Nia o encontraria e o levaria para fora do hospital. Eles ficariam escondidos até Rômulo se liberar da confusão (ou fugir, se fosse preciso) e ir buscá-los. Em sua casa, já estavam separados os suprimentos todos que precisariam para a viagem, todos devidamente guardados no porta-malas de seu quarto. Nia já havia, inclusive, levado uma mada com suas roupas e outra com as de Jonathan. O segurança sempre acho muito estranho a maneira carinhosa da enfermeira com o paciente. Para o homem, aquele rapaz não passava de um débil mental qualquer que não possuía qualquer atributo capaz de despertar o amor de uma mulher; mas ele não estava ali para julgar ninguém, apenas para cumprir um pedido de alguém que lhe fora tão importante.
Merda! O elevador não funcionava. Em frente às portas, Rômulo insistia apertando os botões, mas nada acontecia: nenhuma luz, nenhum barulho. Foi quando se deu conta do mais óbvio: o hospital inteiro estava sem energia, usando geradores para não desligar as máquinas dos pacientes e permitir que os funcionários transitassem pelos corredores. Era estranho que um hospital tão grande tivessem baterias tão fracas, e Rômulo não acreditava nas palavras de Landau sobre a reforma em toda a fiação e a futura instalação, assim que a reforma fosse concluída, de mais geradores. Para o segurança, aquilo era desvio de dinheiro...
Sobravam apenas as escadas. Rômulo atravessou o mais rápido que seu corpo envelhecendo lhe permitia. Já não era mais o jovem que começara a carreira naquele mesmo hospital, mas ainda assim não demonstrava fisicamente a idade que tinha.
Uma quadra. Era como chamavam os blocos de quartos e salas. Faltava apenas uma quadra, quando Rômulo avistou uma sombra. Parou de correr, controlou a respiração o melhor que pode, e se aproximou. Ele não era de falar, cumprimentava apenas com a cabeça os demais funcionários: pensou em dizer oi, mas tornaria aquilo tudo muito suspeito. Apenas continuou caminhando.
A pessoa à sua frente estava com a cabeça abaixada, os o ombros quase curvados. Rômulo quase colou na parede e continuou andando. Virou o rosto: perguntar se estava tudo bem poderia resultar em uma resposta que o faria se atrasar mais. Preferiu fingir que não viu.
Alcançou o primeiro degrau da escada, virado totalmente de costas para a pessoa, que não o importunou. Seu pé se deslocava para o segundo, quando sua mão foi agarrada. Por instinto, puxou o braço, que não se soltou do aperto, e olhou para trás.
A criatura atrás de si não estava com a cabeça abaixada. Não havia cabeça nenhuma, apenas um cotoco de pescoço. O corpo era magro, como se a pele estivesse toda grudada nos ossos, permitindo o abdômen retraído quase o suficiente para revelar a coluna. E justamente no abdômen havia, na altura do estômago, uma boca escancarada, com dentes perfeitamente alinhados e uma língua que lambia convulsivamente os lábios. Daquela coisa vinha o som de um gemido vazio que lembrava um estômago roncando, reagindo à fome.
Por instinto, Rômulo girou o restante do corpo, acertando a criatura com o solado de suas botas. “Um chute na boca do estômago”, sua mente em terror conseguiu pensar. Seria uma piada em qualquer situação menos aterradora, mas serviu apenas para deixar o segurança mais apavorado. Seu corpo estremeceu num calafrio, e o segurança subiu o restante das escadas à passos largos, pulando de quatro em quatro degraus, numa necessidade irracional de fugir.
Era impossível, tudo aquilo era impossível. Sua mente atordoada pelo medo tentava processar e aceitar a criatura. Pisou no primeiro pavimento, ou segundo andar. Foi quando ouviu vozes de criança. “William louco. Matou a mãe com um machado como um tronco oco. William louco. Com as mãos sujas, de alegria, gritava rouco.” Sobressaltou-se, as lembranças do sonho vindo em jorros, fazendo-o perder o equilíbrio. De alguma forma, manteve-se em pé, continuou correndo. As vozes se aproximaram, vinham de um corredor à direita.
Rômulo dobrou o primeiro à esquerda. Não lhe passou pela cabeça que poderia ter continuado subindo as escadas.

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