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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Roland - Parte 6

Roland já não dormia tanto; aos poucos seu sono se tornara mais controlado. Tinha passado a acordar quatro ou cinco vezes por dia: ao amanhecer, pelo começo da tarde, ao anoitecer e pelo meio da noite. Certa feita, ele foi obrigado a perguntar porque já não dormia tanto.
- Parei de te dar caldo de dorme-dorme. Já não necessitas mais, não sentes mais tantas dores.
- E como sabes?
- Não gritas mais durante o sono – disse a bruja, sorrindo.
- Ficaste me cuidando enquanto dormia? - Roland tentou um tom de desafio descontraído. Aos seus ouvidos treinados para perceber a própria voz, pareceu que tentava seduzí-la.
Ela apontou para o restante da pequena casa. Era uma peça, apenas. A cama em que estava deitado ficava de frente à uma mesa de dois lugares. À sua direita havia um fogão à lenha, aos pés dele, no chão, um colchão de palha. Não havia qualquer outra coisa ali.
- Deve estar sendo ótimo dormir ali... - disse, irônico.
- É ali que durmo. Esta cama eu fiz pra ti.
Roland não respondeu, preferiu mudar de assunto... bruscamente.
- Porque me cuidas?
El hombre en negro me disse que esta escolha deveria ser tua, não minha.
- Que escolha?
Ela se aproximou, chegou seu rosto bem próximo ao do dele. Entre salvá-la ou assassiná-la: essa era a escolha; soube sem que ela respondesse. Finalmente ele era capaz de ver seu rosto, e não havia qualquer traço de velhice como ele lembrava. A bruja era jovem e bonita, com um sorriso sincero e um olhar...
O cabelo dela caía sobre metade do rosto, mas ainda assim Roland notou algo estranho no olho encoberto. Tentou afastá-lo com as mãos, para ver a face dela por inteira, mas ela se afastou como que assustada. Instintivamente, algo passou pela cabeça do gaucho.
- Achei que bruxas só morressem quando queimadas até virarem cinzas; que nada mais as ferissem.
- Não é um ferimento...
- E o que é? Parece cicatriz de feitiçaria
Ela se calou. Era a resposta de que Roland precisava.
- Me conte, por favor.
A bruja abriu a boca, hesitou, e fechou novamente. Fez isso duas ou três vezes, parecendo procurar as palavras certas.
- Não irá me influenciar na minha decisão – e foi o que ela precisava ouvir.
- É um pacto de sangue.
Roland sabia o que aquilo significava.
- O velho... - perguntou, reflexivo.
Em silêncio, ela balançou a cabeça, em afirmativo.

*

Roland entrou no pequeno vilarejo com os passos mais firmes que sua condição ainda debilitada lhe permitia. Toda a animalada procurou sair para longe; ficaram em seus lugares apenas o pequeno rato e o jovem corujito.
Qué pasa! - gritou o corujo
Buenas! - respondeu Roland, ignorando a ameaça na voz do outro. Ergueu a mão em cumprimento.
- Passa daqui, que não é mais bem vindo. Te emancebou com a bruja.
- Quero ter com o velho pai,
- Não! Traíste a confiança que foi depositada em ti – respondeu o corujo, parando na frente do pistoleiro.
- Abre!
- Não... - havia satisfação e desafio naquele tom de voz.
Roland não tinha por índole repetir duas vezes quando era desafiado, muito menos abrir discussão com piazote que mal havia saído das fraldas. Puxou de seu facão, o com a lâmina azulada, e deu de estouro do lado da cabeça do rapazote. O impacto fez ferver o rosto do metamorfo, que cambaleou para trás e caiu atordoado ao solo.
- O que tu fez! - gritou o rato, se aproximando. A resposta de Roland foi desviar de ambos e seguir seu caminho.
O rosto do corujo ainda fervia. Aquela marca nunca sairia. O pistoleiro sabia disso, e fez esperando que por toda a vida o corujito lembrasse daquele dia. Entretanto, se o corujo aprendeu, os outros ainda não. Se haviam evitado a presença de Roland, agora se reuniam à sua frente. Defenderiam o irmão: o pistoleiro apreciou a união, mas riu-se por dentro da ingenuidade.
Um a um, eles investiram. Um a um, Roland os derrubou com estouros de facão. Mas foi mais leve com estes, agora. Atacavam por uma boa causa. O pistoleiro procurou evitar o rosto e outros lugares mais visíveis, focando sempre que possível às costas. Agora o barulho de coisa fervendo preenchia toda a clareira. Todos os metamorfos estavam caídos e marcados.
Mas fora esforço demais: as costas do pistoleiro começaram a doer, e suas pernas à falhar. Mesmo assim, ele continuaria até a casa do velho. Morreria lá dentro, se fosse estivesse fadado à falhar, mas não voltaria atrás.
O velho certamente ouvira a confusão, pois saíra de casa armado de um grande facão de osso. Vendo o pistoleiro caminhando com dificuldade em sua direção, percorreu o restante do percurso falando:
- Pelo que vejo – e olhou para trás de Roland – vancês muy que confabularam. Tanto que ela te levou pra seu lado. Me pregunto se tu foste um tongo que te entrega por palavras, ou se ela deixou que tu a encobrisse – sua voz era baixa e ríspida.
- Cala-te, velho imundo! Que fizeste à tua própria filha? - o pistoleiro manteve o mesmo tom do velho.
- Tonteria!
- Tonteria? Então é neta! Por pior ainda!
- Cala-te, que de nada sabes. Solo quiero lo qué es miyo! Ela tem seus poderes por minha causa. Nada mais digno que me devolvê-los!
- Um pacto de sangue, seu verme imundo! Com uma menininha!
- Verme? O farrapo se apaixonou por uma chinoca de beira de estrada e quer me dar lição de moral!
Roland investiu contra o velho, a faca em punho. O velho desviou uma lâmina com a outra, com a mesma facilidade que um jovem faria.
- Vá-te, hombre, e te deixo viver. Já viste tudo que queria!
Foi quando o pistoleiro entendeu o tom baixo: nenhuma daquelas crianças sabia sobre aquilo. Olhou para trás, esperando que alguém acompanhasse aquilo, mas todos tentavam se ajudar. Péssimo momento para se preocupar em revelar à aldeia um de seus mais bem guardados segredos.
O velho desferiu um golpe com a sola de seu pé esquerdo, esticando com grande força e velocidade sua perna para frente. Rolando caiu no chão e rolou sobre si antes de bater com força a nuca na terra batida. Foi impacto suficiente para deixá-lo um tanto atordoado. O preto velho se aproximou e chutou-o duas vezes na lateral de seu corpo, fazendo-o girar.
- Vejam, meus filhos! A morte do traidor! Esperei dele a vitória contra a bruja que tanto nos odeia sem motivos, mas fui apunhalado pelas costas! Ele veio para cá buscando nos destruir, mas não terá sucesso em seu intento!
Péssimo momento para discursos. Da única vez que olhou para o grupo de metamorfo, mesmo sem levantar a cabeça, o pistoleiro agiu. Cravou seu facão azulado e afundou-o até o cabo na coxa do velho. Não houve qualquer reação, e Roland afrouxou as mãos. Com aquela mesma perna, o velho lhe chutou, fazendo o corpo do homem levantar do chão.
- A faca! Vejam! - gritou o ratinho. - É a mesma que queimou nossa pele, mas nada faz contra o grande pai.
O pistoleiro riu, cuspindo sangue. O velho lhe chutou mais duas vezes.
- Seu merda! - o velho sussurrou.
- A bruja os ataca porque ele suga o poder dela. - disse Roland, o mais alto que pode.
- Não acreditem! Ele tenta nos cofundir!
- Tu sabias que ela já perdeu um olho nesse seu joguinho?
- Cala-te!
- Ela não quer o mal desta aldeia! Quer apenas ser liberta da dor causada por est... - e foi interrompido com mais um chute.
O que o velho não contava era que Roland havia agarrado a faca presa em sua carne, e a segurava com toda a força que lhe restava. Ao chutar o corpo do pistoleiro, o velho força sua perna contra a lâmina da faca, que desce rasgando sua pele e seus músculos até a altura do joelho.
- Não te causa dor, nem te provoca agonia, mas te debilitas como a qualquer um – disse o pistoleiro, rolando o corpo para mais longe do velho.
- Tolo! O poder dela me regenerará! - gritou, erguendo os braços e a cabeça. No mesmo instante o ferimento da coxa, de onde não saiu um filete sequer de sangue, começou a ferver e a fechar.
- Tolo és tu! - gritou Roland, puxando seu revolver, o também azulado, e atirou.
A bala foi certeira à cabeça do velho, entrando pelo queixo e saindo pelo topo. Sem qualquer gemido ou lamento, o corpo caiu com um baque seco. Deveria estar acabado.
- Eu te vejo – disse o corujo, se aproximando. Com as mãos firmes ajudou o pistoleiro a se levantar – Temos o que confabular.
Roland assentiu com a cabeça.
- Mas, primeiro, um mate – e sorriu com os dentes cheios de sangue.

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